Gītā Jayantī

ॐ पार्थाय प्रतिबोधितां भगवता नारायणेन स्वयं
व्यासेन ग्रथितां पुराणमुनिना मध्येमहाभारतम्।
अद्वैतामृतवर्षिणीं भगवतीमष्टादशाध्यायिनीम्
अम्ब त्वामनुसन्दधामि भगवद्गीते भवद्वेषिणीम्॥

om pārthāya pratibodhitāṁ bhagavatā nārāyaṇena svayaṁ
vyāsena grathitāṁ purāṇamuninā madhyemahābhāratam |
advaitāmṛtavarṣiṇīṁ bhagavatīmaṣṭādaśādhyāyinīm
amba tvāmanusandadhāmi bhagavadgīte bhavadveṣiṇīm ||

Om. Ó Deusa Mãe! Ó Bhagavad Gītā, ensinada pelo próprio Senhor Nārāyaṇa em consideração a Arjuna, o filho de Pṛthā (Kuntī). Fielmente reunida e relatada pelo antigo Sábio Vyāsa (e inserida) no meio do Mahābhārata, composta por dezoito capítulos a jorrar o néctar da não-dualidade. A destruidora da vida do vir-a-ser. Ó Deusa Mãe, eu a invoco de novo e mais uma vez.

Gītā Jayantī

Gītā Jayantī é o aniversário do texto Śmad Bhagavad Gītā, a gloriosa canção do grandioso Senhor, celebrado no décimo primeiro dia da quinzena clara do mês de Mārgaśīrṣa (novembro-dezembro) do calendário hindu.

A Bhagavad Gītā é parte do grande épico Mahābhārata, compilado pelo Ṛṣi Veda Vyāsa, tendo sido produzida na forma de um diálogo entre Bhagavān Śrī Kṛṣṇa e o guerreiro Arjuna.

Carregando em si a essência dos Vedas (escrituras reveladas da tradição védica), a Bhagavad Gītā aborda como viver a vida humana, apontando seu propósito e os meios para atingi-lo. Nesse diálogo, o guerreiro Arjuna representa a humanidade, pois seus dilemas que envolvem o sofrimento e a confusão dele decorrente são experimentados por todos os seres humanos. Sua mensagem, portanto, é para a humanidade.

Trata-se de um texto lindo, que oferece um panorama de que toda a busca pela realização de si mesmo culmina em sermos um com Īśvara (a causa de tudo). Em suas linhas, todos os aspectos mencionados nas Upaniṣads (textos do final dos Vedas que possuem como propósito revelar a não-dualidade) estão presentes e de forma acessível para o intelecto contemporâneo. A mensagem é atemporal e a linguagem empregada, sob a orientação de um professor tradicional, faz despertar clareza para a realidade do Si mesmo.

A história que serve como pano de fundo para o ensinamento retrata uma guerra entre primos, em que Arjuna sabe que está do lado do dharma (aquilo que é correto), enquanto seus primos, kauravas, estão do lado do adharma (aquilo que não é correto), em função de suas ações.

Segundo as escrituras, os Kṣatriyas (classes dos líderes e guerreiros) dispõem de quatro meios para solucionar um conflito, a serem aplicados em certa ordem. O último recurso é a punição, no caso, a guerra. Sem escolha, a guerra em nome do estabelecimento do dharma era inevitável naquele contexto.

No lado oponente, Arjuna reconhece seu guru e seu avô, constatando que essa é uma guerra contra sua própria família. Na condição de ser humano e identificado com seus familiares, fortes emoções nublam o intelecto do guerreiro, causando-lhe sofrimento e fazendo-o enxergar tudo às avessas. Sem saída e sem esperanças, rende-se a Śrī Kṛṣṇa   e pede seu auxílio.

Assim, como em muitas Upaniṣads, o discípulo se rende ao Guru, pronto para servir e poder receber suas lições. Com um sorriso nos lábios, Śrī Kṛṣṇa começa seu ensinamento no segundo capítulo, a partir do 11° verso. Este capítulo é tido como a síntese de todo o ensinamento. O sorriso de Bhagavān Śrī Kṛṣṇa demonstra como a diferença entre sofrer ou não por uma situação delicada não depende da situação em si, mas sim da atitude perante a mesma. Essa atitude é regida pela sabedoria ou pela falta dela. O conhecimento faz a diferença em nossas vidas, pois conduz à atitude apropriada diante de qualquer situação, nos libertando do sentimento de vítima. 

De início, Śrī Kṛṣṇa apresenta um quadro geral do que será adiante elaborado ao longo de todo o texto. As escrituras geralmente têm essa abordagem, primeiramente apresentam o conteúdo para depois desenvolvê-lo, o que é fundamental para despertar o interesse e realçar a importância daquilo que está sendo passado, fazendo com que o interessado permaneça atento para ouvir. Neste primeiro momento, então, Karma-yoga (ação com atitude apropriada), Bhakti-yoga (devoção) e Jñāna-yoga (yoga do conhecimento) são apresentados por Bhagavān como os meios para libertação do sofrimento que representa o saṁsara (a roda de mortes e renascimentos, a vida do constante tornar-se diferente do que se é).

É importante ressaltar que os mencionados meios não são alternativos entre si, mas sim estágios da busca pela liberdade, sendo adotados de acordo com a evolução pessoal de cada indivíduo.

O problema do saṁsara é cognitivo, devido à ignorância da realidade. A ignorância só pode ser removida pelo conhecimento. Portanto, o único recurso é o caminho do conhecimento. Para assimilar o conhecimento, a mente precisa ser refinada. Tal refinamento acontece através da prática do Karma-yoga e Upāsanā  (meditação cujo objeto é prescrito pelas escrituras, podendo ser uma deidade ou Īśvara como o cosmos, etc).

Karma-yoga consiste na realização das ações com a atitude apropriada, efetiva-se quando nos propomos a realizar as ações de forma a contribuir com a ordem do dharma, que é Īśvara. Swami Dayananda Saraswati ressaltava muito a conversão do consumidor para o contribuidor. Somos consumidores desde o nascimento, afinal, tudo nos é dado, desde o ar que respiramos, o corpo pelo qual se vivencia o mundo, a família que é a base do indivíduo e até as oportunidades. A mentalidade atual, reforçada pelo modelo econômico e pelo estilo de vida materialista, nos afasta muito do cultivo da maturidade emocional e intelectual. Permanecemos consumidores e escravos dos desejos e aversões.

No terceiro capítulo, Śrī Kṛṣṇa apresenta como tudo no mundo funciona em ciclos e como cada ser tem seu papel a cumprir. Ao compreendermos isso e a falácia do egoísmo, passamos a contribuir e a servir cada vez mais. Expandimos o coração e aquilo que antes parecia grande e atormentava a mente perde a relevância e se encaixa em seu devido lugar, dentro da ordem. Tudo segue uma ordem. Ordem fisiológica, ordem biológica, ordem psicológica. E a ordem é Īśvara. Com essa clareza, podemos nos validar e nos ver em ordem.

Compreendendo a ordem e entendendo que toda ação traz uma reação, qualquer situação de nossas vidas é vista como resultado dessa ordem, que é Īśvara. Nessa perspectiva, somos capazes de receber com objetividade e muitas vezes graciosamente todos os fatos sobre a vida, o passado, o presente e uma relativa calma e confiança se estabelecem em relação ao futuro. Quanto mais praticamos essa sabedoria, vão cessando as insistências e resistências, sobrevindo então uma paz relativa, a purificação mental acontece. Os inimigos internos na forma de apegos e aversões afrouxam suas garras e nos tornamos capazes de seguir com uma mente mais sutil e refinada na direção de Moskṣa, a liberdade.

Śrī Kṛṣṇa também ressalta a importância da devoção na busca pelo conhecimento. A devoção dá suporte e segurança emocional para a busca, assim como um sólido sentimento de confiança. Na tradição do Vedanta, é dito que uma pessoa precisa se converter de dependente do mundo para dependente de Īśvara, para então depender apenas de Si, do verdadeiro Eu que é revelado pelas escrituras. Esse é o ensinamento de Bhagavān Śrī Kṛṣṇa: a verdade por trás do mundo, do indivíduo e de Deus, que é Brahman, a realidade absoluta que é você.

 A mensagem da Gītā é apresentada através da primeira e da última palavra do seu texto, dharma e mama. Mama dharma. Mama dharma, sob o viés do Karma-yoga, significa fazer o seu dever com a atitude apropriada. Já conforme o Jñāna-Yoga, mama dharma revela a nossa natureza, que é plenitude, existência e consciência.

Que possamos então celebrar, agradecer e homenagear a Bhagavad Gītā, a essência dos Vedas, que nos traz tantos insights para que haja cada vez mais clareza entre nossos muros. Que tenhamos uma atitude de reverência diante desse texto, para que seu ensinamento nos abençoe e para que possamos viver sob a sua visão e sabedoria, libertos.

Om sad gurave namaḥ _/\_
Escrito por Maline Ribeiro