Navarātri

या देवी सर्वभूतेषु क्षान्तिरूपेण संस्थिता।
नमस्तस्यै नमस्तस्यै नमस्तस्यै नमो नमः॥

yā devī sarvabhūteṣu kṣāntirūpeṇa saṁsthitā  |
namastasyai namastasyai namastasyai namo namaḥ  ||

À deusa que habita em todos os seres na forma de compaixão,  empatia e amor incondicional, saudações a Ela, saudações a Ela, saudações a Ela, repetidamente.

Navarātri

Navarātri é um festival muito popular na Índia, que acontece no mês Aśivinī do calendário hindu, sendo também marcado pelo início do outono, Śarad Ṛtu.

Nava significa ‘nove’ e rātri significa ‘noite’. Trata-se de nove noites dedicadas à adoração das três principais deidades femininas do panteão hindu Śrī Durgā, Śrī Lakmī e Śrī Sarasvatī.

A maneira como se celebra essa ocasião e seu ponto focal diferem de região para região. Tomamos por base, neste texto, o sul da Índia, onde se enfatiza Śrī Sarasvatī, a deusa do conhecimento.

Durante as nove noites, observa-se certa disciplina, como jejuar, realizar pūjās (rituais) e pārāyaam (recitação de versos como o Śrī Durgā Saptaśatī, Śrī Lalita Sahasra Nāma), entre outros. Os rituais são divididos em fases, sendo cada devī (deidade feminina) adorada por um período de 3 noites.

As três primeiras noites são dedicadas a Śrī Durgā, as três seguintes, a Śrī Lakmī e as três últimas, a Śrī Sarasvatī. Apesar da contagem ter por base as noites, como sugere o nome do festival, os rituais acontecem durante o dia.

No dia seguinte após as nove noites, acontece o Vijayadaśamī. Um dia exclusivo para a devoção de Śrī Sarasvatī. Vijaya significa vitória. Podemos interpretar a celebração desse dia como a vitória do conhecimento, a remoção da ignorância sobre o Ser Ilimitado, que é nossa verdadeira identidade. Nesse dia, livros e utensílios de trabalho são colocados no altar. É o único dia do ano no qual nenhum tipo de estudo deve acontecer, para que no dia seguinte, conhecido como Vidyārambha, os estudos se iniciem.

Śrī Durgā
Śrī Durgā é a consorte do Senhor Śiva. Nos Purāas (textos que relatam histórias sobre os deuses e deusas do Hinduísmo), é dito que Devī Durgā nasceu da união dos poderes de todos os Devas (deuses) para a derrota de um Asura (demônio) sob a forma de búfalo.

Uma explicação para essa simbologia é que os Devas representam nossas qualidades e virtudes que, uma vez reunidas para a aquisição do conhecimento, personificado na imagem da Devi, são capazes de aniquilar a ignorância sob a forma do Asura.

Na própria Kena Upaniad, a deusa Pārvatī, que também é Śrī Durgā, aparece como Brahma Vidyā Devī, a personificação do conhecimento da realidade ilimitada, Brahman. Ela transmite para o rei dos Devas, Indra, o conhecimento de Brahman

Śrī Lakmī
Śrī Lakmī é a consorte de Viṣṇu, conhecida como a deusa da prosperidade, harmonia e riqueza.

Os recursos são necessários e os Vedas não negam isso, de fato, prescrevem a maneira adequada para a aquisição e distribuição da riqueza, bem como a atitude que uma pessoa deve ter em relação aos recursos. Sendo assim, o próprio dinheiro é visto como Lakmī Devī.

Além disso, a riqueza também pode ser a atribuição daquilo que é dotado de valor. Nesse sentido, cada indivíduo pode ter um conceito de riqueza. A culminação de toda a riqueza é o conhecimento, pois este nos mostra o ilimitado que somos, onde todas as buscas cessam. No mundo das transações, qualquer tipo de riqueza é finita. Já o resultado do conhecimento da realidade é ilimitado e só ele garante a libertaçãode qualquer tipo de escravidão que se apresenta na forma de buscar sempre mais para se preencher.

Aquilo que se busca com a riqueza é o sentimento de suficiência ou plenitude. O conhecimento revela que plenitude é a nossa natureza, sendo essa a maior riqueza que se pode ter. O propósito de uma vida se realiza em sentir-se pleno, por se saber que se é da natureza da plenitude.

Śrī Sarasvatī
Śrī Sarasvatī é a consorte do Senhor Brahmā. Sendo a personificação do conhecimento, ela é também a deusa da música e das artes. A arte contribui para a refinação da personalidade e das emoções.

Enquanto as outras devīs trabalham aspectos tamasicos (densos) e rajasicos (ativos) de nossa personalidade e emoções, Sarasvatī invoca as qualidades sattvicas (sublimes), qualidades necessárias para que o conhecimento do Ilimitado possa acontecer na mente. Amente precisa estar suficientemente tranquila e centrada para que o conhecimento daquilo que é mais sutil possa ser assimilado.

A deusa Sarasvatī é também conhecida como Vāg Devī, a deusa do discurso, da fala. O conhecimento acontece através de śabda pramāa, ou seja, através de palavras.

Vedānta é o desdobramento das Mahāvākyas, afirmações pelas quais a verdade é revelada através do jīva (indivíduo), jagat (o mundo) e Īśvara (Deus, o Todo) como uma única, não dual e ilimitada consciência/existência; o real significado da palavra “Eu”. A deusa Sarasvatī é aquela que flui, como conhecimento, através das palavras. Flui e toma lugar no intelecto dos que buscam compreender Brahman (o Ilimitado) como Si mesmo.

Que as Devīs possam abençoar nossa busca e percurso rumo ao conhecimento e sua assimilação, auxiliando-nos com o refinamento pessoal e a crescente clareza. Que através de suas bênçãos tenhamos todas as condições necessárias para viver uma vida de propósito, com coragem, recursos e conhecimento, livre de limitações e enxergando que já somos a Plenitude que, por ignorância, vivemos buscando. E que esse entendimento se expresse em nossas vidas sob a forma de satisfação, leveza e tranquilidade.

 

 

| om aiṁ hrīṁ klīṁ sarasvatyai namaḥ |

Om sadguravenamaḥ _/\_
Escrito por Maline Ribeiro